Ele lá… Eu cá

Deixar o filho com alguém parece trivial, mas, na hora do vamos ver, vem a culpa, a angústia… Parece até que você está à beira de abandoná-lo!

Com a sogra, com a avó, com a babá, não importa: dá dor no peito só de pensar em deixar a cria com outra pessoa. Desde o momento em que o bebê vem ao mundo, a gente cria com ele uma relação chamada de simbiótica, como se vocês se “fundissem” em um mesmo ser. Em um primeiro momento, é uma questão de sobrevivência: o bebê é dependente para tudo, não tem jeito. Depois, há a questão biológica mesmo: somos inundadas de oxitocina, o hormônio do amor.

A questão é que, na hora de quebrar essa tal simbiose, ou seja, quando chega o momento da gente se separar e entender que o filho é uma pessoa independente, é comum dar uma travada. “A  ligação entre bebê e mãe nessa fase é a mesma da planta parasita e de sua hospedeira, que fornece a seiva de que a outra precisa. Essa relação vai se rompendo conforme o bebê cresce, mas há mães que têm dificuldade nisso”, explica Elizabeth Monteiro, mãe de Gabriela, Samuel, Tarsila e Francisco, psicóloga, escritora e nossa colunista.

O mais importante é entender que seu filho precisa ir para o mundo, se relacionar com outras pessoas, saber que existem regras diferentes na casa da vovó (sem interferências suas), que as brincadeiras da babá são outras e também deliciosas, que com a madrinha pode comer sorvete no meio da tarde, mesmo que com você não possa… Essas relações são ricas e fundamentais. E o único jeito de ele viver isso é conviver com outras pessoas além de você (e sem você).

“Crianças precisam se preparar para um mundo social e ver que as pessoas não são iguais. Elas aprendem a lidar com frustrações, a esperar a mãe chegar, a adquirir noção de tempo, a dividir os brinquedos, a se preparar para um mundo que não é perfeito e entender que os desejos delas não são sempre satisfeitos. Em resumo, se preparar para as regras da vida”, diz Elizabeth.

Fora que, convenhamos, você também precisa de um tempinho seu: seja para fazer a unha, andar de bicicleta, trabalhar… A gente sempre diz aqui: a mãe feliz é uma mãe melhor. Ou seja, quanto mais você conseguir praticar seus hobbies, fazer aquilo que te dá prazer, mais inteira você estará para o seu filho quando chegar em casa.

Mãe culpada, filho inseguro

Não é regra, mas acontece. Se você sente culpa ao deixar seu filho com outra pessoa, ele vai sentir e não vai querer se separar. Essa ansiedade é passada através do seu corpo para a criança. Quer um exemplo clássico? A volta ao trabalho depois da licença-maternidade. A criança incorpora o desespero da mãe ao deixá-la na escola ou com alguém, e pode ficar também mais ansiosa e insegura com a situação.

Segundo a psicóloga Adriana Cândido da Silva, filha de Eliana e Teófilo, a mãe culpada em geral tem um ideal de maternidade inalcançável e acaba exercendo uma supervigilância como forma de compensar a culpa de não o atingir. “Assim como a falta, o excesso de zelo é prejudicial”, diz.

Elizabeth orienta a fazer o seguinte raciocínio: “Se a mulher não pode ficar em casa por questões financeiras, ou quer trabalhar por realização pessoal, isso já é uma solução. É melhor que a mãe tenha consciência de que o trabalho dela é importante para a família do que ficar em casa infeliz, nervosa, frustrada e preocupada com a falta de dinheiro”, diz.

Tá, mas como faz?

Escolha o local mais adequado para deixar a criança. Se for em um berçário, o recomendado é fazer visitas, para conhecer a infraestrutura e os profissionais. Se for com alguém da família – o que vale para qualquer situação de ausência dos pais, até viagens a dois –, deixe as quedas de braço de lado e coloque na balança os prós e contras. Adriana recomenda que, nos casos em que não há consenso entre o casal (cada um quer deixar com a própria mãe, por exemplo), o melhor é fazer experiências, deixando o filho em dias intercalados com pessoas de confiança, e depois observando onde ele ficou mais à vontade. Mas atenção: sempre pensando no bem-estar da criança, e não na comodidade dos pais.

O mesmo vale para a separação com o bebê, sem mudanças drásticas. Elizabeth sugere que, desde os primeiros meses, a mãe vá lhe dando as “coordenadas”. “Frases como ‘a mamãe vai sair, mas você não está sozinho’ e ‘a mamãe te ama e volta jajá’, quando cumpridas, vão sendo assimiladas pelo inconsciente do bebê”, explica.

E Adriana complementa: “Se a mãe está se preparando para ficar longe da criança, ela pode deixá-la uma hora com a avó em um dia, uma hora com o pai em outro, e assim por diante. O importante é ter um substituto do apego”.

Cuidado com as intolerâncias. A não ser que a criança tenha restrições muito específicas de alimentos e horários, você não deve impor os seus padrões na casa dos outros. “O filho deve ser avisado pelos pais de que cada casa é diferente”, acredita Elizabeth.

Viajar sem culpa? Com certeza. Apenas cuidado com períodos maiores de ausência, principalmente até os primeiros 2 anos da criança. “Não é indicado deixar o filho com menos de 2 anos para fazer uma viagem de mais de uma semana. A partir dos 6 meses, viagens de um final de semana estão liberadas, contanto que a criança fique com alguém com quem tenha vínculo”, explica Elizabeth.

Às vezes, a gente fica com ciúmes da relação com os outros: como é que a avó sabe de uma coisa que eu não sei sobre o meu próprio filho? Ou: por que ele contou o que aconteceu na escola para a madrinha, em vez de contar pra mim? Ciúme, que nada, isso é maravilhoso! Ver o filho se relacionando é vê-lo crescer e amadurecer. Ele está aprendendo o papel de cada um na família. Aprenda o seu também.

Mãe x pai

O papel do pai é justamente levar o filho para o mundo, romper a simbiose entre ele e a mãe. Sejam casados ou separados, deixe que o pai exerça essa função. Em caso de guarda compartilhada, cada casa tem suas regras, mas pai e mãe precisam conversar para manter a rotina do filho estável, sem muita confusão e mudança de lá pra cá.

(Entrevista concedida por Adriana Candido da Silva à revista Pais e Filhos, link do texto original: https://paisefilhos.uol.com.br/pais/ele-la-eu-ca/)

 

One thought on “Ele lá… Eu cá

  1. Texto bastante interessante e muito atual. Realmente quando chega a hora de separar -se, ainda que por poucas horas, de seu bebe nada é fácil. Todos os sentimentos citados no texto se misturam e bate uma saudade enorme de seu filhote. Mas é assim mesmo! Ele precisa crescer e a gente deve facilitar esse processo. Hoje eu vivo o outro lado desse cenário…cuido do meu netinho alguns períodos para minha filha poder trabalhar. Esse também é um processo delicado. Tento ao máximo observar, e respeitar, as orientações da mamãe. Como já passei por esta fase, eu sei que não é fácil para minha filha. Mas sei também que ir trabalhar sabendo que seu filhote está cercado de amor e cuidado da vovó diminui a ” sensação de culpa” e, desta forma, posso ajuda-la de uma forma mais ampla. Esse vínculo, entre mães e seus filhotes, é muito forte e fica para sempre ( independente de idade ou distância) e é muito importante esclarecimentos, como deste texto, para que as mamães consigam passar por todas as fases desse relacionamento de uma forma mais segura e serena. Estou certa que muitas mamães se identificarão com este cenário. Parabéns pelo texto!! Eliana

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