O Pesadelo the-nightmare-henry-fuseli-1781

A respeito dos pesadelos

"O pesadelo" (1781), de Henry Fuseli.
“O pesadelo” (1781), de Henry Fuseli.

Há algum tempo escrevemos a respeito da função e do significado dos sonhos em geral (veja texto aqui). Desta vez abordaremos em maiores detalhes uma modalidade muito especial de sonhos, aquilo que em psicanálise chamamos de “sonhos de angústia”, ou seja, os pesadelos.

Chamamos os pesadelos de “sonhos de angústia” por serem capazes de nos acordar em meio ao sono, e isso em virtude de um medo muito intenso. Assim como no caso dos sonhos comuns, para compreender os pesadelos precisamos reconhecer a divisão da psique e a existência do inconsciente, conforme esclarecidos pela psicanálise.

Caso a seguinte explicação pareça estranha ou de difícil compreensão, remeto o leitor ao texto anterior que apresenta maiores detalhes sobre o funcionamento dos sonhos em geral. Em uma palavra, os sonhos têm por função principal velar o sono, e fazem isso representando, na “tela” da mente, a realização dos desejos do sonhador. Todavia, como esses desejos nem sempre são reconhecidos pela pessoa que sonha, ou seja, são desejos inconscientes, o sonho os figura de maneira disfarçada. Por essa razão é que, à primeira vista, os sonhos aparentam fazer pouco ou nenhum sentido.

Por outro lado, explicar os pesadelos nos traz um problema adicional, pois eles parecem ser exceção à regra, descoberta por Freud, de serem os sonhos a expressão de desejos do sonhador. Ora, se os pesadelos nos assustam, se nos mostram cenas horríveis, como podem representar desejos? Isso não é algo facilmente compreensível.

Como vimos no texto anterior, o sonho é o resultado de uma aliança temporária e delicada (ou seja, uma “formação de compromisso”) entre diferentes instâncias psíquicas que estão sempre em conflito. Por um lado, há os desejos inconscientes que querem se expressar, querem chegar à consciência e, por outro, há o desejo de continuar dormindo sem interrupções. Como resolver esse conflito? O sonho é uma tentativa. Ele “engana” o sonhador mostrando-lhe a realização de seus desejos, e assim, evita que ele desperte.

O problema é que muitos desses desejos são inadmissíveis ao sonhador. Esse é o caso dos desejos sexuais ou agressivos: o sujeito não os reconhece, e caso os percebesse seria tomado de grande angústia. Para contornar esse problema, entra em ação uma instância censora que disfarça o conteúdo dos sonhos e torna-os, aparentemente, sem muito sentido, e, dessa forma, a pessoa pode continuar dormindo tranquilamente.

Fazendo uma analogia, é como se um fiscal de alfândega (a censura onírica) permitisse a passagem ilícita de mercadorias (os desejos inconscientes) para se ver livre de maiores conflitos com contrabandistas que o incomodam todas as noites, desde que essas mercadorias sejam bem disfarçadas como se fossem produtos legais.

Dentro desse raciocínio, como funciona o pesadelo? Ele quebra a aliança entre as instâncias psíquicas que produzem o sonho. O pesadelo acontece quando o sonho expressa com maior intensidade os desejos que não são admitidos pela consciência do sonhador. Nesse caso, o sonho dribla a censura onírica com tanta força que se torna impossível manter o sono, e a pessoa acorda sentindo intenso desprazer.

O pesadelo, portanto, também é a expressão de desejos sendo realizados, todavia, trata-se de desejos reprimidos que são expressos mais claramente, sem a devida distorção. Nessa situação, tudo se passa como se o “fiscal de alfândega” fosse surpreendido pela transposição escancarada de mercadorias ilegais, e sua reação de alarme e descontentamento traduz-se na angústia da pessoa que desperta.

O pesadelo, então, não constitui exceção à regra de serem os sonhos a expressão de desejos. O fato é que, como disse Freud, a relação do sonhador com seus desejos é muito peculiar, pois ele os repudia e censura – “(…) realizá-los não lhe dá prazer algum, mas o contrário; e a experiência mostra que esse contrário aparece sob a forma de angústia” (Freud, 1996 [1900], p. 609). Ou seja, quando esses desejos surgem nos sonhos de maneira mais explícita, sem muitos disfarces, o sonhador acorda precisamente para evitar reconhecê-los.

Isso não quer dizer, no entanto, que o conteúdo manifesto do pesadelo corresponda exatamente aos desejos latentes do sonhador. Mesmo os pesadelos podem ser bastante distorcidos pela censura onírica, e apenas um processo de análise poderá esclarecer os pensamentos latentes que fomentaram esse tipo de sonho.

Agora vamos analisar outras características importantes dos pesadelos. Como dizia um célebre psicanalista e colega de Freud, Ernest Jones, o pesadelo possui três características principais: em primeiro lugar, o pavor agonizante; em segundo, o senso de opressão ou peso sobre o peito que interfere com a respiração; e finalmente, a convicção de uma paralisia desamparada.

Já falamos sobre o pavor, ou seja, sobre a angústia envolvida no pesadelo. Vamos então analisar a segunda característica – o peso sobre o peito do sonhador. Muitas vezes, quando estamos acordados e nos sentimos angustiados, sentimos uma pressão no peito e uma dificuldade para respirar. É também isso o que acontece no pesadelo, pois ele corresponde a um sonho que nos evoca muita angústia.

Nesse sentido, é interessante observar a etimologia do termo usado para o pesadelo em inglês, Nightmare. Essa palavra deriva do anglo-saxão neaht ou nicht,significando “noite”, e mara,que significa “íncubo” ou “súcubo”. Ou seja, na língua inglesa, o significado arcaico do pesadelo corresponde ao “íncubo” ou “demônio noturno”.

Mas o que é o “íncubo” e o que ele tem a ver com essa explicação sobre os pesadelos? Segundo antigas crenças populares, os íncubos eram demônios indecentes que visitavam as mulheres durante o sono, pressionando com força o seu peito e violando-as sexualmente contra a vontade. O íncubo podia ser tanto uma figura repelente como se assemelhar a qualquer pessoa amada pela vítima. Do modo análogo, acreditava-se que os homens podiam ser atacados no sono por demônios femininos que, neste caso, eram chamados de “súcubos”.

Vale observar ainda que “íncubo” era um sinônimo do pesadelo na Idade Média, e esse significado figurado do pesadelo ainda hoje se encontra em dicionários de nossa língua, como o Houaiss. A aparição do íncubo assume, dessa forma, a representação mais privilegiada da experiência do pesadelo – envolvendo o terror, a sensação sufocante de pressão e a paralisia características.

Essa descrição arcaica do pesadelo tem perfeita harmonia com a famosa tela (veja acima) de Johann Heinrich Füssli (ou Fuseli), “O pesadelo” (1781), na qual são figurados o demônio noturno (íncubo) e um cavalo fantasmagórico na presença de uma mulher adormecida. O íncubo encontra-se sentado sobre a dama, pressionando seu peito e dificultando sua respiração.

Em português, a etimologia da palavra “pesadelo” envolve a união da palavra “pesado” com o diminutivo latino “elo”. Observa-se, mais uma vez, a associação da angústia noturna com o peso ou pressão sobre o sujeito. O que seria esse peso?

Obviamente, nos dias de hoje, não se acredita mais na existência do íncubo e do súcubo. Mas falar sobre essas lendas populares pode nos ajudar a perceber que, no pesadelo, o pavor costuma advir de sentirmos que somos cativos de algo ou alguém, de uma presença maligna que nos aprisiona e pressiona.

Veja-se o caso dos pesadelos mais comuns, aqueles de perseguição. Quantos de nós já não sonharam serem perseguidos por alguém (um assassino, um ladrão, um monstro, etc) e acordaram quando estavam prestes a ser alcançados? Esses sonhos são bem ilustrados pelas histórias de terror: não importa o quanto a vítima corra, é certo que o perseguidor sempre consegue alcançá-la. Isso reflete a terceira característica do pesadelo citada por Jones: a paralisia desamparada, ou seja, a sensação de que não há como escapar.

Aliás, as histórias de terror sempre ilustram muito bem o que se passa no pesadelo. Vejamos uma descrição excelente de um pesadelo no famoso conto “O Horla”, de Guy de Maupassant. Nessa história macabra, o protagonista sente-se perseguido dia após dia por uma figura maligna invisível, que se aproxima dele cada vez mais e chega a abordá-lo em sonhos:

“Durmo – por muito tempo – duas ou três horas – depois, um sonho – não – um pesadelo me assalta. Bem sei que estou deitado e que durmo… Eu o sinto e o vejo… e sinto também que alguém se aproxima de mim, me olha, me apalpa, sobe na minha cama, ajoelha-se sobre o meu peito, põe as mãos no meu pescoço e aperta… aperta… com toda a força para me estrangular. Eu me debato, preso por essa impotência atroz que nos paralisa nos sonhos; quero gritar – não posso; – quero mover-me – não posso; – com um esforço terrível, arquejando, tento me virar, repelir esse ser que me esmaga e sufoca – não posso! E, de súbito, acordo alucinado, coberto de suor. Acendo uma vela. Estou só” (Maupassant, 2011 [1887], p. 50).

O exemplo mostra claramente como, nos pesadelos, estamos sempre na iminência de sermos reduzidos a alguma coisa, um simples objeto, para usufruto de alguém cujas intenções desconhecemos. No pesadelo do personagem de Maupassant, além da pressão exercida por uma presença misteriosa, há também a costumeira sensação de uma paralisia desamparada, ou seja, de que nada se pode fazer para escapar das garras daquilo ou daquele que se aproxima.

Mas o que, então, significam os pesadelos? É claro que o conteúdo do pesadelo, tal como o conteúdo de qualquer sonho, tem um significado único para cada sonhador, o qual somente pode vir à luz no processo de uma análise. Mas, de maneira geral, o pesadelo é expressão das angústias do sujeito, as quais têm a ver com dificuldades no seu relacionamento com os demais.

Ou seja, a pressão e a paralisia do pesadelo indicam que, de alguma maneira, há situações na vida em que a pessoa sente-se pressionada e paralisada, e isso se reflete na forma como ela convive e se posiciona frente às outras pessoas e frente aos desafios diários da vida. Pode indicar, por exemplo, que essa pessoa se sente refém da vontade dos outros, sem conseguir manifestar seus próprios desejos.

Isso é ainda mais certeiro quando a pessoa tem pesadelos frequentes com as mesmas cenas. Pesadelos recorrentes são indícios claros da presença de muita angústia na vida do sujeito. E a angústia, por seu turno, é um sinal de alerta em relação a dificuldades para lutar ativamente pelos seus próprios desejos, para sair uma posição passiva e resignada que chamamos, em psicanálise, de gozo.

Não cabe aqui explanar em detalhes sobre o gozo, já fizemos isso em outros textos (“Sobre felicidade e desejo“, “Sobre a angústia“), basta dizer que o gozo é algo muito presente na “depressão”, nas toxicomanias, nos transtornos de “ansiedade” e “pânico”, e nas neuroses em geral. O gozo é uma tendência, uma força que puxa o sujeito a se fazer cativo de algo (como das drogas) ou de alguém (por exemplo, de agradar os demais e corresponder a suas expectativas). Nessa posição, sem poder encontrar a própria voz, dizemos que o sujeito corre o risco de ser tornar apenas um objeto para o usufruto do Outro, exatamente como acontece nas cenas dos pesadelos.

Assim é que o pesadelo, tal como os sonhos em geral, expressa os nossos mais íntimos conflitos e dilemas. Ele nos alerta sobre um perigo e nos convida a uma mudança de posição subjetiva, mas isso está disponível apenas para aqueles dispostos a dar-lhe uma escuta, uma escuta psicanalítica.

Por Marlos Terêncio

Referências
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). In: Ed. Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (v. IV). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
MAUPASSANT, Guy de. Contos fantásticos: O Horla e outras histórias. Porto Alegre: L&PM, 2011.

6 thoughts on “A respeito dos pesadelos

  1. Olá Terêncio, gostei bastante do seu texto. Será que você poderia mandar mais a respeito? tipo, um resumo por exemplo.

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