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Ficar ansioso para quê?

"Convergence", de Jackson Pollock, 1952
“Convergence”, de Jackson Pollock, 1952

É inegável que a farmacologia tem avançado bastante na descoberta e produção de substâncias com efeito significativo sobre o psiquismo, os chamados medicamentos psicotrópicos.

Vamos aqui tomar o exemplo dos ansiolíticos modernos, os benzodiazepínicos produzidos a partir da década de 60 e que atingiram ampla popularidade nos dias atuais. Falamos de remédios como o diazepam, o clonazepam, o lorazepam, o alprazolam, o bromazepam e o midazolam, entre outros, cujos nomes comerciais todas as pessoas já, ao menos, ouviram falar.

Você sabia que há estudos indicando que uma em cada dez pessoas recebem prescrições de benzodiazepínicos a cada ano, sendo a maioria feita por médicos generalistas? Ou seja, ao menos 10% de toda a população tem acesso a esses remédios, o que é um número extremamente alto.

A popularidade desses medicamentos se deve a sua eficácia para reduzir a ansiedade (efeito ansiolítico) e também para induzir ao sono (efeito hipnótico), aliada a uma margem de segurança maior que outros medicamentos mais antigos, os chamados barbitúricos, em relação ao perigo da superdosagem.

Mas isso não significa que não existam efeitos colaterais – e graves – para esses medicamentos, como a diminuição da atividade psicomotora, o prejuízo da memória, a necessidade de usar doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito (a tolerância) e a temida dependência, tanto física quanto psicológica.

De toda forma, a questão que trago para reflexão é simples: se os medicamentos atuais são tão eficazes para aplacar a ansiedade, há ainda alguma necessidade de ficarmos ansiosos? Ou seja, ficar ansioso para quê?

Vejamos o que a psicanálise pode contribuir ao assunto. Para começar, preferimos usar o termo angústia no lugar de ansiedade, pois a angústia, por definição, captura melhor aquilo que as pessoas realmente sentem nesse estado, como a sensação de desamparo, o aperto no peito, a palpitação, a sudorese, a dificuldade de respiração, etc.

Constatamos na clínica psicanalítica que a angústia é um sinal de perigo, um alerta de que algo não vai bem com o sujeito. Freud dizia que a angústia é um sinal de perigo produzido no “eu” que, por sua vez, põe em marcha o processo de repressão ou recalcamento. Para Lacan, a angústia é um sinal do afastamento do sujeito em relação ao seu próprio desejo, aproximando-se do campo do gozo mortífero.

Não pretendo, neste momento, explicar em maiores detalhes a teoria psicanalítica da angústia (veja aqui), senão apenas focar na função da angústia como sinal de alerta. Sinais são muito importantes na vida. De que forma o bombeiro pode descobrir e localizar um incêndio se não antes enxergar o sinal de fumaça? Da mesma forma, o analista orienta grande parte do tratamento por meio deste sinal psíquico chamado angústia. Assim, respondo desde já a pergunta inicial afirmando que a angústia cumpre uma função de sinal e, portanto, ela não somente é útil ao tratamento analítico como, em certo grau, até necessária.

Deste modo, o grande problema de se recorrer somente ao medicamento ansiolítico é que ele suprime esse sinal importante de perigo sem tratar realmente daquilo que o causa. Isso é como lidar com um incêndio em uma casa somente fechando as janelas e impedindo a fumaça de sair, sem fazer o principal, qual seja, apagar o fogo lá dentro. Uma coisa é certa: mais cedo ou mais tarde, o fogo aumentará e a fumaça encontrará outra passagem.

Existem razões, portanto, para ficarmos angustiados, e é sobre elas que a psicanálise atua. Usando uma analogia que já desenvolvi em outro texto, se existe uma ferida dolorosa no corpo (neste caso, a angústia), não basta limpar superficialmente o machucado, será necessário identificar e remover aquilo que o provoca. Mas isso leva algum tempo e envolve lidar com a dor, em vez de apenas suprimi-la.

Quem toma ansiolíticos pode perceber, se prestar realmente atenção, algumas mudanças subjetivas negativas para além da redução de sua ansiedade. Costuma haver uma sutil sensação de dormência, uma espécie de “anestesia psíquica”, no sentido de uma redução geral da força do desejo na vida do sujeito. Ou seja, podem diminuir os seus interesses pessoais e profissionais, as situações capazes de gerar contentamento e empolgação, o desejo sexual, etc, havendo risco, até mesmo, de se cair gradualmente em um quadro depressivo.

Isso acontece porque o desejo e a angústia são faces de uma mesma moeda. Quem tenta suprimir sua angústia apaga junto o seu desejo, ou seja, usando o ditado popular, é como “jogar fora o bebê junto com a água do banho”. O psicanalista sabe que não é possível desejar sem, antes, atravessar a angústia. E quando menciono uma travessia, isso não significa evitação. Ao contrário, trata-se de aprender a suportar um certo grau de angústia para chegar ao outro lado da moeda, o desejo.

A angústia cede naturalmente quando o sujeito assume responsabilidade pelos seus desejos, incorporando-os a sua vida. Nessa situação, a angústia dá lugar à vontade de viver, de existir, de produzir, de trabalhar, de amar, etc.

Com essa reflexão, não nego a utilidade e até mesmo a necessidade de se recorrer aos ansiolíticos em situações de crise e para pessoas que sofrem cronicamente de muita angústia. Mas para cada um vale fazer este questionamento: em sua vida, é suficiente apenas não ficar ansioso? É suficiente apenas dormir com facilidade?

Se a resposta for positiva, não há nada de errado, embora isso seja contentar-se com muito pouco.

Mas se a resposta for negativa, é possível realizar uma jornada analítica que nos permita aprender com a angústia ao contrário de evitá-la, ou seja, observar o que de fato ela sinaliza e atravessá-la para chegar à dimensão do desejo de viver.

Por Marlos Terêncio

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