Por que uma escuta psicanalítica?

Por que uma escuta psicanalítica?

Divã de Freud exposto no Museu Freud (Londres)
Divã de Freud exposto no Museu Freud (Londres)

Um conhecido texto de Rubem Alves, intitulado “Escutatória”, aborda de maneira criativa e poética a problemática de escutar e falar na experiência humana. Diz o escritor, com muito bom humor, que todos procuram por cursos de oratória, ou seja, todos querem aprender a falar, mas ninguém se interessaria por um curso de “escutatória”, isto é, pelo aprendizado da arte de escutar.

Diriam alguns que ouvir é muito fácil, que árduo é aprender a falar, a se expressar, a se comunicar. Sem dúvida que a expressão é difícil para muitos — em clínica psicanalítica recebemos pacientes com tal dificuldade –, mas saber escutar é igualmente trabalhoso e raro.

Sugiro aqui uma distinção entre ouvir e escutar. Ouvir é aquilo que fazemos em nossos relacionamentos cotidianos: ouvimos o outro, muito embora, com frequência, estejamos apenas esperando por nossa oportunidade para falar. Misturamos nossos preconceitos e julgamentos com aquilo que ouvimos da boca do próximo e, como resultado, compreendemos e acolhemos muito pouco daquilo que ele ou ela nos dirige com sua fala. Estamos ávidos por opinar, por discordar, por aconselhar.

A escuta, por sua vez, tem uma qualidade diferente. É aquilo que se faz, como diz Rubem Alves, quando há silêncio dentro da alma. Quando os pensamentos não fazem ruído excessivo em nossa cabeça, aí, sim, podemos escutar o outro. Quando abrimos mão de nossos preconceitos, certezas e julgamentos, podemos realmente escutar e acolher aquilo que o outro nos endereça em sua fala.

A possibilidade de escutar a partir do silêncio é muito enfatizada na mística oriental. Um antigo conto zen-budista relata a busca de um discípulo pela sabedoria, indagando seu mestre. O mestre Zen nada lhe explica, ao contrário, apenas despeja chá na xícara do discípulo, até o líquido transbordar. Quando o consulente, surpreso, queixa-se desse pequeno descuido, o mestre diz-lhe que aquela xícara cheia de chá era como a sua mente, repleta de opiniões e conhecimento ocioso. Nada de novo poderia ali entrar, ela estava completamente ocupada. Em outros termos, o discípulo ainda não tinha a capacidade de escutar.

O psicanalista também está ciente do problema, pois sabe que somente se escuta um paciente na ausência de julgamentos e de certezas absolutas a respeito do que ele fala. E o paciente, ao sentir-se verdadeiramente escutado, consegue, finalmente, dar expressão aos seus pensamentos e sentimentos. Nos idos de 1900, foi Freud o primeiro a dar uma escuta às pacientes histéricas, que eram vistas como dissimuladas pelos médicos da época. Ninguém realmente as escutava, seu discurso era menosprezado. E com esse ato simples, porém difícil, de escutar, conseguiu Freud compreender e mostrar-lhes a dinâmica inconsciente de seus sintomas, livrando muitas delas da miséria neurótica.

Muitos profissionais se propõem a escutar o sofrimento alheio, mas é comum que estejam apenas esperando para aconselhar, com receitas prontas, os seus clientes. A escuta do psicanalista é diferente, pois tem o compromisso com a singularidade de cada sujeito: cada história de vida é única e, assim, também é singular o caminho a ser trilhado pelo paciente para a resolução de seus conflitos.

Da mesma forma, a escuta do psicanalista é flutuante, como dizia e orientava Freud, no sentido de dedicar igual atenção a todo o discurso do paciente. Quando temos prejulgamentos, escutamos somente partes da fala alheia — precisamente, aquelas partes que confirmam nossas hipóteses sobre o que está lhe acontecendo. Freud orientava o contrário, ou seja, escutar tudo com igual atenção. Essa orientação foi levada muito a sério por Jacques Lacan, que destacou a polissemia do discurso: quando falamos, deixamos escapar muito mais sobre nós do que intencionamos conscientemente. Isso é patente, sobretudo, no dito espirituoso (o chiste), nos atos falhos (esquecimentos e lapsos) e nos relatos de sonhos. Até mesmo nossos sintomas dizem muito sobre nós, e o analista está ali para escutar essas várias mensagens cifradas.

E à medida que escuta o sujeito, o psicanalista se permite falar, mas vale lembrar que seu discurso tem o único objetivo de mostrar ao paciente os seus conflitos e as razões latentes desses conflitos. Isso é suficiente para provocar grandes mudanças subjetivas.

Se uma pessoa carrega pedras nas mãos acreditando serem diamantes, de nada adiantará dizer-lhe para soltá-las. Ela não acreditará ou, até, pensará que estamos tentando ludibriá-la. O método analítico permite, simplesmente, que ela olhe para o que tem em mãos: quando notar que são pedras, largará por si mesma.

Ou seja, o analista não age como se soubesse o caminho para a felicidade, pois qualquer conselho advém sempre da experiência pessoal e, muito provavelmente, não servirá para as nuances particulares da vida de outra pessoa. E se conselhos resolvessem, bastaria ao paciente desabafar com seus amigos ou familiares…

O que escuta, então, o psicanalista? O analista escuta o desejo inconsciente — aquilo que, muitas vezes, difere do que, conscientemente, queremos. O analista percebe e pontua essa divergência, o que é suficiente para abrir ao sujeito uma chance de constituir um novo posicionamento em relação a sua vida.

Em um mundo marcado por tantos discursos sobre o sofrimento psíquico, cada qual propondo-se como a verdade última e o caminho certeiro para a felicidade, há pouco espaço para a escuta sincera de cada sujeito em sua singularidade, no intuito lhe facultar o encontro de sua própria voz. Essa é a proposta de uma escuta psicanalítica.

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