Qual a sua fantasia?

Qual a sua fantasia?

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A condição humana, de René Magritte, 1933

A tradição carnavalesca brasileira nos traz familiaridade com o uso de máscaras e fantasias durante o mês de fevereiro. Muitos anseiam o ano todo por esse momento, pois usar uma fantasia nos permite a expressão lúdica e desinibida de alguns de nossos desejos.

Poucos fazem ideia, contudo, que também “usamos” fantasias diariamente, em nossas vidas cotidianas. Trata-se de uma descoberta eminentemente psicanalítica, pois foi Freud quem percebeu, muito cedo em sua clínica, que fantasias sexuais e agressivas inconscientes estavam na base das neuroses de seus pacientes.

Essa descoberta da onipresença da fantasia na vida psíquica estende-se a todos os seres humanos. À noite, encenamos nossas fantasias sob a forma distorcida nos sonhos e, de dia, sob a forma de devaneios. No prisma psicanalítico, portanto, seria mais coerente dizer que não usamos fantasias — somos usados por elas –, pois essas cenas imaginárias governam nossas vidas sem que tenhamos a menor consciência disso.

Quais seus gostos musicais, estéticos, artísticos? Que tipo de filme você gosta de assistir? Que tipo de leitura o instiga? Todas essas preferências pessoais são ditadas por nossas fantasias inconscientes.

Contudo, muito além disso, também nossas escolhas mais importantes na vida, como as   profissionais e as amorosas, são ditadas pelas nossas fantasias.

A função da fantasia é muito bem ilustrada pela famosa tela de René Magritte, A condição humana (1933), na qual se observa uma tela de pintura sobreposta ao caixilho de uma janela. Nessa cena incomum, ao invés de vermos a paisagem do lado de fora da janela, podemos apenas enxergar a bela ilustração na tela do pintor. Essa é, precisamente, a função psíquica da fantasia — proteger o sujeito do contato com o real.

Ou seja, a fantasia é como usar óculos, sem saber, 24 horas por dia. Esses óculos protegem nosso olhar, mas também são geradores de grandes problemas: por exemplo, se a fantasia do sujeito funciona como óculos escuros, o dia lá fora parecerá sempre sombrio e sem vida, mesmo que, no mundo real, o sol esteja brilhando…

Tudo aquilo que se repete na vida mesmo que não queiramos — decepções amorosas, escolhas profissionais infelizes, problemas de relacionamento diversos —  tem sua fonte em fantasias inconscientes que atuam à nossa revelia. Ou melhor, somos nós que as atuamos, sem saber.

Tendo isso em vista, o núcleo do processo psicanalítico é o desvelamento das fantasias inconscientes. Trata-se de um processo bastante gradual, que começa com os devaneios mais banais, porém pode chegar às cenas que estruturam nossa vida psíquica, as chamadas fantasias fundamentais. A esse processo chamamos de travessia da fantasia.

Fantasiar é parte fundamental da experiência humana: não podemos viver sem sonhar. Mas é possível ganhar mais consciência sobre nossas fantasias psíquicas. Ao percebê-las, o sujeito deixa de ser um mero fantoche delas, evitando decepções e sofrimento.

Tal como no carnaval, usar fantasias pode e deve ser um momento lúdico e aprazível.

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