Sobre felicidade e desejo

Sobre felicidade e desejo

"Mulher ante o sol poente" (1818), de Caspar David Friedrich
“Mulher ante o sol poente” (1818), de Caspar David Friedrich

O que faz as pessoas felizes? Como definir o que buscamos com a expressão “felicidade”? A resposta parece óbvia: queremos a realização de todos os nossos desejos. Mas será que a satisfação total é possível aos seres humanos? A psicanálise tem muito a dizer sobre essa questão.

Freud dizia que o desejo se instala em nós quando muito pequenos, ainda bebês. Quando o neonato é saciado pela primeira vez — por exemplo, na amamentação —, essa experiência fica registrada na sua memória em formação e, na sequência, passará a ser por ele buscada continuamente, gerando o protótipo do desejo. Ou seja, a criança passará a buscar, primeiro pelo choro e, mais tarde, pela fala, novas experiências de satisfação nos moldes daquela primeira que ficou marcada no seu psiquismo.

Por outro lado, como somos seres falantes, a linguagem, nos esclarece Lacan, entra como complicador nessa busca incessante pela satisfação. A linguagem instala uma diferença entre o nome e a coisa nomeada como objeto da nossa satisfação. Ou seja, como afirma um ditado Zen-budista, o dedo que aponta para a lua não é a própria lua. Em consequência, o ser humano é separado de si mesmo pela própria linguagem. Ele não tem acesso a experiências de satisfação pura ou total, as quais chamamos, em psicanálise, de gozo. Tudo se torna parcial. A satisfação possível é sempre parcial.

Assim, desde pequenos somos confrontados com esta verdade: aquilo que desejamos nunca nos satisfaz por completo. Há sempre uma diferença entre o desejado e o obtido. Falta alguma coisa.

Deste modo, em termos psicanalíticos, a felicidade nunca pode ser total, senão apenas parcial, no sentido de que ela deve sempre deixar um espaço para se querer mais. A satisfação total inexiste, ela é apenas a linha do horizonte. O prazer possível é, assim, parcial. Quando o prazer avança para a tentativa de abarcar a totalidade, para o “além do princípio do prazer” (a pulsão de morte freudiana), ele se transforma em gozo (conceito lacaniano).

A psicanálise demonstra que o desejo é a característica maior do humano, ele nunca morre pois precisa dar vazão à força constante das pulsões. E mais: se deixamos de desejar, adoecemos.

O que aconteceria se tivéssemos exatamente tudo o que desejamos? Seria isso a felicidade ou a face mais hedionda da morte? Vejamos: caso eu tivesse absolutamente tudo o que quero, se nada me faltasse, não haverá mais motivo para pensar, para falar, para andar, para fazer qualquer coisa. Em suma, eu deixaria de existir como sujeito, isso equivaleria à própria morte.

Por isso o ser humano deseja. Segundo Lacan, “desejo é desejo de desejo”. A frase parece um argumento tautológico, um vício de linguagem, mas sua ideia é apenas indicar a natureza do desejo. O desejo humano quer apenas isso: continuar desejando, em direção ao horizonte da felicidade. E quando o sujeito não deseja, adoece, ou seja, dirige-se a caminho da morte.

Nessa linha de raciocínio, as neuroses, em suas diferentes formas, têm algo em comum: são renúncias ao desejo. Nelas o sujeito perde vitalidade, vis existendi, força de existir. Encontra-se passivo, queixoso, infeliz, mortificado. Não se sente o protagonista de sua própria vida. A essa posição passiva e sofredora chamamos, também, de gozo.

O gozo é o empuxo em nós para não desejar, uma parte de nós ainda ligada a uma espécie de nostalgia de um passado mítico, de um estado primitivo em que a satisfação era, aparentemente, absoluta. Em outros termos, trata-se do empuxo para retornar ao colo dos pais. Em todos nós existe um conflito constante entre gozo e desejo. No neurótico, por sua vez, há sempre muito gozo e pouco desejo.

E o que é a angústia? A angústia é o termo mediano entre gozo e desejo. Ela serve para alertar o sujeito  quando ele aproxima-se demais do gozo, ou seja, do caminho para a satisfação total que conduz à morte. Todo neurótico é angustiado, muito embora, em algumas neuroses, o sujeito defenda-se, também, da angústia, ou seja, evita senti-la.

A toxicomania, por exemplo, realiza o curto-circuito do desejo. Nela, renuncia-se profundamente aos prazeres parciais da vida em troca da promessa de um gozo total, pois a droga torna-se o Santo Graal que deve suprir tudo para o sujeito. Quanto mais avança nesse circuito, mais caminha em direção à morte. Afundado no gozo mortífero, o sujeito é preso de grande angústia, e tenta evita-la amortecendo-se com a droga, cada vez mais.

Nas neuroses, o desejo encontra-se embotado. Vemos isso com clareza na melancolia, cuja expressão maior é a perda da vitalidade, da própria vontade de viver. Mas também é esse o caso na histeria e na obsessão, essas estruturas psíquicas em que a melancolia pode ou não comparecer como manifestação.

O histérico evita a satisfação de seu desejo, relançando-o sempre como um desejo insatisfeito. O que ele quer está sempre no horizonte, como o pote de ouro dos contos infantis. Quando está prestes a realizar algum desejo, foge assustado. Sem o saber, ele associa a satisfação do seu desejo à própria morte.

Já o obsessivo evita o desejo pela mortificação de si mesmo. Estando morto, ou amortecido, ele tenta evitar a falta-a-ser, ou seja, evita a constatação de precisar sempre buscar algo para sua satisfação. Muitas vezes, sua mortificação lembra uma espécie de ascese religiosa, renunciando os prazeres “mundanos” em prol da promessa de uma salvação completa.

De diferentes formas, nas neuroses recusa-se ao prazer, ou melhor, à satisfação parcial que advém do desejo. Há uma busca incessante da satisfação total (o gozo), muito embora, ao mesmo tempo, o sujeito intua que, se realmente conseguisse tudo o que quer, isso seria sua morte. Essa intuição advém na forma de angústia.

Perceba-se que o gozo não garante a ninguém a satisfação total, pois ela não existe. Ele é apenas uma busca insistente por essa satisfação “sem limites”. Mas como isso é impossível, só o que se ganha, de fato, é sofrimento e frustração.

Uma das obras-primas de Andrei Tarkovsky, o filme Stalker de 1979, ilustra muito bem esse dilema entre o desejo e o gozo. Na história, dois homens são conduzidos por um guia em uma expedição até uma área misteriosa e proibida, chamada “A Zona”, em cujas profundezas se encontra um local deveras especial — uma sala capaz de satisfazer todos os desejos de seus visitantes.

O “escritor”, o “professor” e o guia (chamado “Stalker”) realizam a longa jornada e, atravessando uma série de perigos, chegam até a entrada d’A sala. Mas ali, limitam-se a observa-lá do lado de fora, sem adentrar o recinto. Ponderam bastante sobre os motivos de cada um para buscar aquele local e, após algum tempo, simplesmente retornam para casa.

O que aconteceu nessa história? Os personagens tiveram receio da realização de seus desejos. Por um lado, porque “A sala” realizava seus desejos mais profundos, aqueles inconscientes, que poderiam conflitar com aquilo que o sujeito quer conscientemente. Mas por outro lado, a promessa da realização total dos desejos parecia trazer-lhes o cheiro certo da morte. Prostrados na antesala, sentiram a angústia que os alertava sobre tal perigo. Foi-lhes suficiente, assim, o prazer parcial da própria travessia, de forma que retornaram renovados a suas casas.

A psicanálise traz uma proposta análoga ao sujeito: uma travessia que produza menos gozo e mais desejo na sua vida. Esse desejo passa a ser relançado, não como um desejo insatisfeito do histérico, mas como algo cuja satisfação é possível, embora sempre parcial. Em outros termos, conduz-se o sujeito a perceber que vale mais usufruir de prazeres parciais originados pelo desejo, do que viver em sofrimento e angústia perante a impossibilidade de atingir a felicidade total.

A psicanálise, portanto, não promete a felicidade, no sentido de sugerir que seja possível o acesso a um mundo idílico da satisfação total. Mas, para aqueles que, como em Stalker, se encorajam a ter contato com seus desejos mais profundos, ela propicia a chance de produzir, ativa e incessantemente, a parcialidade do prazer de viver. A nós humanos, seres falantes, essa é a felicidade possível – a satisfação provisória de assumir nossos desejos.

Vale salientar: isso tudo não nos remete a uma visão pessimista da vida. Isto é, não significa dizer que o ser humano não possa ser feliz. Muito ao contrário, trata-se apenas de reconhecer que a felicidade possível não é aquela da idealização do Paraíso, pois problemas sempre vão existir para quem está vivo. Nesse sentido, ser feliz envolve conseguir aproveitar as pequenas e grandes satisfações do dia-a-dia e, também, lidar produtivamente com as insatisfações, pois estas abrem espaço para o desejo de realizações futuras.

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