O desejo e sua verdade – uma análise do filme “Swallow”

Muitos filmes ilustram com maestria os dilemas do desejo. “Swallow” (2019), dirigido por Carlo Mirabella-Davis, é um bom exemplo recente. Traduzido no Brasil como “Devorar”, deve-se primeiro lembrar que a tradução exata do título é “engolir”, sendo nesta ação que os questionamentos da protagonista se instalam.

Swallow (2019), de Carlo Mirabella-Davis

Não pretendemos aqui expor e analisar o filme em detalhes, a ideia é apenas destacar alguns elementos interessantes que convocam a psicanálise. O leitor, se interessado, é convidado a assistir ao filme.
Hunter é uma mulher que se casa com um rico e poderoso empresário. Sua vida muda abruptamente pois, de ilustradora aspirante, ganha a possibilidade de não trabalhar, passando seus dias em uma requintada mansão em um local muito calmo e isolado. Seu marido, Richie, demonstra pouca consideração pelos interesses dela, estando muito mais preocupado com suas próprias aspirações profissionais. Gradualmente, Hunter sente-se isolada, física e psicologicamente. Surge-lhe então o impulso crescente de engolir objetos não comestíveis – tais como bolinhas de gude, tachinhas, bonecos de metal, pilhas, etc.

A pica ou alotriofagia é um transtorno alimentar classificado nos manuais médicos (CID e DSM), mas do qual pouco se compreende de fato. Costuma-se apenas dizer que suas causas são multifatoriais e que o tratamento deve ser multiprofissional.

Se considerarmos que a arte imita a vida (e vice-versa), a história de Hunter, no entanto, possibilita-nos uma interessante leitura psicanalítica da questão.

Observa-se que tudo em sua nova vida foi imposto, sem opção. De uma vez, abandona seus projetos profissionais e torna-se uma dona de casa, contentando-se em assistir às conquistas do marido. E mais: engravida e prepara-se para a maternidade, sem nem mesmo ser consultada sobre o seu desejo de ser mãe. Todas essas imposições aconteceram, por assim dizer, “goela abaixo”. E é aí, no circuito digestivo, que o sintoma – a compulsão por engolir – se instala.

O sintoma é tudo aquilo que causa sofrimento e do qual o sujeito não tem controle. O que é revolucionário na psicanálise é perceber o sintoma como uma mensagem cifrada, uma expressão simbólica de instâncias psíquicas em conflito. É interessante lembrar que, tal como os sintomas, os sonhos, os atos falhos e os chistes também são manifestações do inconsciente.

Dessa forma, uma leitura possível para a questão é pensar que Hunter não “engole” a vida que leva, por mais confortável que possa parecer. Assim, ela busca pequenas coisas – objetos corriqueiros – que possa engolir, controlar e desejar. Tudo em sua vida está controlado pelo marido, a exceção dos objetos estranhos que ela sorrateiramente opta por engolir. Trata-se da tentativa de desejar e controlar algo secretamente em sua vida, vez que todo o resto está vedado.

Seu uso desses objetos, inclusive, segue um ciclo que guarda analogias com próprio processo fisiológico da gravidez. Eles são introduzidos no corpo, seguem lá dentro por caminhos tortuosos (e dolorosos) e, ao final, são evacuados. A personagem, até mesmo, demonstra um curioso orgulho de suas proezas, pois os objetos que saem de seu corpo são posteriormente enfileirados e expostos em uma espécie de altar em seu quarto.

Hunter criou uma espécie de “ritualística secreta”, é como se somente naquele espaço íntimo houvesse a possibilidade de desejar algo. Mais uma vez, percebe-se que o sintoma envolve a possibilidade de decidir sobre o que entra e sai de seu corpo, que contrasta com a falta de controle na situação da gravidez. No filme fica muito claro o prazer que a personagem tem ao “acompanhar” todo o processo, desde o engolir os objetos até a sua evacuação.

Freud já pontuava, também, que o sintoma é sempre uma formação de compromisso, um acordo, entre dois lados do psiquismo em conflito. A esse respeito, importa lembrar que Hunter não é apenas vítima da situação. Ela opta pela vida que leva, uma vida confortável no sentido material e, talvez, idealizada como correta por ela mesma – ser, por exemplo, apenas uma boa esposa e mãe. Não demonstra, a princípio, interesse em mudar de situação, muito embora não esteja nada satisfeita. O sintoma se forma, então, como solução para manter esta vida aparentemente confortável (embora infeliz) e tentar obter, ao mesmo tempo, alguma satisfação por uma via de escape – ainda que isso seja secreto e altamente perigoso.

Sem querermos “dar spoilers”, ao final do filme é possível confirmar que Hunter não desejava, de fato, nem o casamento com Richie, nem a maternidade.

O desejo carrega uma verdade que é, muitas vezes, difícil de admitir. Na vida real, na experiência da clínica psicanalítica, observamos que não é fácil ter a coragem de se confrontar com a verdade de seus desejos – é muito comum observarmos pacientes absorvidos neste mesmo dilema. Como o filme demonstra, há ganhos secundários com o sofrimento sintomático que precisam ser abandonados. Não se pode ter tudo. Mas é certo que estar em contato com o próprio desejo, com todas as perdas que isso implica, é sempre melhor do que todos os supostos ganhos que acompanham um sintoma. A psicanálise permite que possamos nos implicar nas várias facetas do nosso desejo e, com isto, afastar-nos da angústia.

Por Marlos Terêncio e Adriana Cândido da Silva

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